5 de jun de 2012

OS DOIS CASAMENTOS DE JOSÉ CARLOS

Virgínia Woolf, a célebre ensaísta britânica: para alívio do primeiro-ministro, suas obras não frequentam a cabeceira do ninho de amor de José Carlos e Edna

Por Conrado Vitali, em seu blog:
O prefeito José Carlos Augusto mantém dois casamentos. Os dois poderiam ser melhores. No modelo clássico, aquele na seara amorosa, cultiva um casamento estável com a bancária aposentada Edna Lamar; uma espécie de dama de mármore. A ela devo todo o reconhecimento pela educação e gentileza com que sempre me tratou. A ela minha família deve toda a atenção dispensada quando, ainda funcionária ativa do antigo Banespa, procurava agilizar, de todas as formas, o atendimento prioritário quando minha mãe, já doente terminal de câncer e correntista do banco, precisava de serviços da agência e já não tinha forças sequer para ir ao banco. A ela devo toda a paciência e autocontrole que exibiu quando um estranho de Brasília passou a frequentar sua casa e escolher até as gravatas que seu marido iria utilizar em ocasiões midiáticas. A faceta simpatia de Edna - que de fato é real -esconde uma personalidade dura, capaz de fazer cobranças constrangedoras. Sempre discreta na minha frente, apenas uma única vez a vi desancando um prestador de serviço do governo guairense na frente do marido prefeito. O fato ocorreu ainda durante a organização da primeira festa do peão patrocinada pelo governo de José Carlos, em 2009, e mostrou-me, com clareza, que a primeira-dama, quando mármore, consegue botar ordem na casa. Edna não é boba. Mulher independente desde cedo, tem a experiência crucial de nunca ter dependido do marido para sobreviver. No interlúdio problemático vivido por José Carlos entre um mandato e outro, justamente durante os Anos Sérgio de Mello (2005 a 2008), foi o salário de Edna que segurou boa parte das pontas quando o marido tinha ganhos instáveis. Amigos ajudavam José Carlos com empréstimos mas isso, obviamente, para o padrão de vida dos Augusto, não era suficiente. Pouca gente sabe mas Edna só veio a formalizar, sob bençãos confessionais, sua união com José Carlos, justamente durante o segundo mandato do marido. Ainda na primeira metade do novo governo do esposo, numa cerimônia quase secreta, com pouquíssimos convidados (eu não estava entre eles) e nenhuma publicidade, Edna casou-se "no religioso" com José Carlos. Fez bem. A primeira-dama, num momento de faceta mármore, exigiu a celebração do compromisso para "selar" , sob as bençãos apostólicas romanas, o matrimônio. Na verdade, ciente de que o poder é afrodisíaco para homens de meia-idade e um imã que atrai vagabundas de todos os buracos, a dama de mármore tratou de colocar uma coleira psicológica no marido tendo a família e amigos íntimos por testemunhas. Isso não resolve muito as coisas quando a cabeça de baixo assume o comando sob o efeito dos esteróides do poder, mas é mais um obstáculo na corrida movida a testosterona em que nós, os porcos chauvinistas, transformamos nossa rotina de cafajestes. Edna fez mais. Quase na mesma época deu um "tapa" no visual recorrendo a intervenções plásticas quase tão secretas quanto a cerimônia de casamento que ninguém viu. Fez bem de novo; especialmente a si própria. Mulher que se preza exerce a vaidade e deve espetar a conta no cartão de crédito do marido. Sei como isso funciona desde criança. Mamãe foi uma das primeiras mulheres da cidade, há quase 40 anos, a recorrer ao bisturi de renomados cirurgiões para levantar algumas pendências anatômicas que começavam a flertar com o chão. Desnecessário dizer que isso elevou sua auto-estima, provocou aquela inveja gostosa nas amigas e renovou o tesão de papai. Com toda essa força, Edna derrapou onde poderia ser decisiva; afinal é ela que, longe dos sicofantas que enchem a cabeça do marido durante todo o dia, deita ao lado do guerreiro nas poucas horas em que ele está livre da influência dos puxa-sacos do governo. Durante seu repouso, submetidos a chaves de perna eficientes, os guerreiros costumam ceder ao charme do universal "foi bom pra você ? ". É nessas horas, depois de dar imenso prazer ao marido (espero, para o bem das tradições gaúchas, que José Carlos sempre tenha correpondido às expectativas ), que as mulheres, na maioria dos casos, conseguem o que querem. Na minha jamais modesta opinião, foi aí que Edna errou. Seguramente ela poderia ter usado os lençóis de forma mais eficiente para blindar José Carlos da influência que o prefeito sofre, diariamente, de seu outro casamento; o político. É o matrimônio carne-e-unha celebrado com seu chefe de gabinete, José Reinaldo dos Santos Júnior. Fiel escudeiro do prefeito ( e isso precisa ser dito para o bem de toda a verdade ) foi José Reinaldo, durante os anos de ostracismo de José Carlos, que manteve-se praticamente sozinho ao lado do então ex-prefeito tampão quando ele transitava no limbo da política e vivia às turras com sua conta bancária. Ocorre que a fatura da fidelidade foi apresentada em preço muito alto e José Carlos não se importou em pagar. José Reinaldo, como já disse em vezes anteriores, é o calcanhar-de-aquiles de José Carlos. Sua influência e ascendência sobre o chefe do executivo certamente serão utilizadas pela oposição. Ao permitir - até porque não tinha outras opções na formação de seu governo médio - que seu chefe de gabinete acumulasse rapidamente poderes discricionários emprestando-lhe status de "primeiro-ministro", José Carlos vestiu-se com o manto de Rainha da Inglaterra, um tipo de roupa que lhe traz problemas desde que dediciu entrar para a política. Elizabeth faz os discursos mas quem dá as cartas é David Cameron. Ao invés de usar o segundo mandato para se livrar do estigma de prefeito "que não sabe mandar", José Carlos preferiu permitir que José Reinaldo ocupasse o espaço que bem entendesse. Em algum momento, Edna falhou na chave de perna. "Ô Bem, você deve sim gratidão ao Zé Reinaldo, mas não do tanto que ele quer", deveria ter dito a dama de mármore a José Carlos depois de uma daquelas noites de mulher de veludo. Infelizmente (só para José Carlos) Edna deixou-se cooptar pela competência controladora de José Reinaldo. Certa ocasião, intrigada com uma saída não programada de José Carlos numa manhã de final de semana, Edna recorreu a quem para trazer o marido de volta ? Uma bala "7 Belo" para quem advinhar. Ligou para José Reinaldo chorando as pitangas. Solícito e decidido a mostrar quem manda, o primeiro-ministro ligou para a Rainha da Inglagerra. José Carlos desistiu do que poderia ser um momento "cavalo selvagem" e voltou para casa. A história me foi relatada com todas as letras pelo próprio José Reinaldo (diante de algo tão saboroso, não pude deixar de fazer o registro). Edna agradeceu e selou oficialmente, a partir daí, uma convivência permissiva e até grata com o outro casamento (o político) do marido. E assim, José Carlos, o "bígamo", vai escrevento a história de seu segundo mandato e de seus dois casamentos. Certa estava Virgínia Woolf, ao dizer que "as mulheres serviram todos estes séculos como espelhos possuindo o poder de refletir a figura do homem duas vezes maior que seu tamanho natural". Na cabeceira do ninho de amor de José Carlos e Edna faltam as obras de Woolf. Melhor para o primeiro-ministro.

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