Tudo por um factoide

Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa: 

 Os jornais de circulação nacional destacam, nas edições de terça-feira (21/10), a nova tendência das intenções de voto, segundo pesquisa Datafolha com opiniões coletadas na véspera. De acordo com os dados registrados no Tribunal Superior Eleitoral, foram ouvidos 4.389 eleitores em 257 municípios.

 Trata-se de uma verdadeira proeza, a se considerar o pouco tempo útil para o trabalho de coleta e a validação das entrevistas, quando pelo menos 30% dos questionários de cada pesquisador têm que ser confirmados por supervisores de campo. 


 Mas não é o caso de acrescentar dúvidas ao penoso trabalho dos institutos, que têm sua credibilidade sob suspeita desde o primeiro turno das eleições deste ano. Trata-se, aqui, de observar o uso que faz a mídia tradicional de informações divulgadas pelo Datafolha e as interpretações que os jornais oferecem com base nesses indicadores. 

 Por motivos óbvios, as análises da Folha de S.Paulo e do Globo, que encomendaram o estudo, tendem a ser mais completas que as do Estado de S.Paulo, e não há divergências importantes entre os textos. A visão predominante é de que se consolida uma reversão da tendência que surgiu na primeira semana após a votação em primeiro turno, quando o candidato Aécio Neves, do PSDB, aparecia com ligeira vantagem sobre a presidente Dilma Rousseff, do PT. 

 A questão que se coloca, na maioria das análises, se refere ao volume dessa mudança, que, embora consistente, se processa com muita lentidão, se comparada aos altos e baixos que marcaram a disputa no primeiro turno. 

 Os analistas da Folha são mais afirmativos ao opinar que o quadro pode configurar o início de uma tendência em favor da reeleição da presidente, mas não descartam a hipótese de que os números estejam apontando uma mera oscilação na margem de erro. 

 O núcleo da mudança estaria na avaliação positiva do governo, em especial na economia e na educação, setores que os cidadãos das classes de renda ascendentes consideram fundamentais em sua nova condição social. É nas amplas classes de renda média que deverá ser definida a eleição. 

 A guerra das versões 

 A conclusão a que os observadores induzem o público é que, se persistir esse sentimento entre os eleitores das classes de renda média até domingo (26), a presidente da República será reeleita, ainda que por uma margem estreita de votos. Pesa contra ela o fato de um contingente importante de seus apoiadores viver em lugares distantes dos locais de votação, como a zona rural do Nordeste e as áreas de baixa densidade populacional da região Norte. Por isso, as análises dão grande atenção ao crescimento da candidatura de Dilma Rousseff no Sudeste. 

 Nesse contexto, conforme destaca a Folha de S.Paulo, torna-se crucial a estratégia de comunicação que será adotada pelas duas candidaturas a partir de agora. Para o senador Aécio Neves, trata-se de desfazer em quatro dias a imagem de boa administradora da economia e da educação, que a presidente Dilma Rousseff construiu no imaginário das classes médias ascendentes, e usar com agressividade o material que a imprensa lhe oferece todos os dias. Para a presidente, é importante consolidar a ideia de que ela representa os interesses dos menos favorecidos. 

 Mas não se trata apenas de um confronto entre duas visões divergentes da economia e da sociedade brasileira: em períodos eleitorais, pode-se dizer o contrário daquilo em que se acredita, porque, como na guerra, em tempo de campanha a primeira vítima é a verdade. 

 Embora os jornais nunca se disponham a cuidar desse assunto, é preciso levar em conta o protagonismo da imprensa, que se comporta, nos últimos anos, como uma organização partidária. No manual do jornalismo contemporâneo, dane-se o fato; o importante é a versão. 

 A estratégia de comunicação adotada pela presidente da República permitiu mostrar a grande parte dos eleitores resultados positivos da administração petista, superando a muralha de meias-verdades levantada pela mídia tradicional. A rigor, a desaprovação da presidente se concentra nos 20% que formam o núcleo irredutível onde a avaliação dos governos do PT sempre será “ruim ou péssima”, mais uma porcentagem variável dos 37% que consideram “regular” a atuação da chefe do Executivo. 

 A eleição poderá ser decidida por um factoide de última hora, em um tema sensível a essa faixa do eleitorado.

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