6 de out de 2015

Domésticas e os resquícios da senzala

Por Thiago Cassis, no site da UJS: 

 “Não é porque o doméstico reside na casa que vai poder tomar certas liberdades como se fosse um hóspede”, essa é a primeira frase de Margareth Carbinato, fundadora e presidenta de honra do Sindicato dos Empregadores Domésticos do Estado de São Paulo. Ela fala sobre o filme “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert. 


 A matéria do jornal Folha de S.P., traz uma entrevista com Carbinato e o título “Não aprendi muito com “Que horas ela volta?”, diz representante dos patrões”. 

 Quando a gente acha que já lemos o pior, vamos percebendo com o decorrer da entrevista que sempre pode piorar um pouco mais. Segundo a dirigente dos “patrões” como anuncia a reportagem, “está faltando no ser humano cada um saber o seu lugar”, seria essa última colocação uma crítica a Lei Áurea? 

 Margareth afirma que gostou da personagem Barbara, a patroa do filme, “porque ela foi até onde suportou e não ofendeu”. Será que ela assistiu a um filme em que a patroa compara a filha da funcionária com um “rato”, quando essa se arrisca a entrar na piscina? Nesse ponto da entrevista percebe os que os parâmetros para definir o que é ofensa podem ser muito flexíveis para determinadas pessoas. 

 Segundo ela, em um determinado momento da entrevista, e em clara referência a chamada “Lei das domésticas”, que garante os direitos para quem fornece esse tipo de serviço, “o empregador tem que se conscientizar de que precisa ter os documentos porque a realidade é outra, não é mais aquela relação que anos atrás era mais próxima”. Relação mais próxima quer dizer menos direitos para os empregados? 

 Na entrevista ainda cabem ataques a ocupação de movimentos de moradia no centro, uma série de outras críticas as novas regulações da profissão de doméstica, e em um “momento Barbara” ela afirma “quem nunca comeu mingau, quando come se lambuza”. Aqui temos talvez um dos momentos mais preconceituosos da entrevista, e que ao mesmo tempo escancara o incomodo das classes hegemônicas em relação a ascensão dos trabalhadores.

 É o embate que vemos nas ruas, o embate que vemos nas universidades e aeroportos, e que apenas confirmam a necessidade de obras como “Que horas ela volta?”, que escancaram esses conflitos e tiram o ódio e o preconceito dos condomínios fechados e trazem para as ruas e para as páginas dos jornais. 

 Se Margareth Carbinato não aprendeu nada com o filme, nós aprendemos muito sobre ódio de classe com sua entrevista.

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