23 de mar de 2017

Jornalistas criticam Moro por condução coercitiva de blogueiro

Da Rede Brasil Atual: 

 A condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães, na manhã de hoje (21), é alvo de críticas de analistas e jornalistas de diferentes linhas de pensamento. Todos questionam a atitude do juiz federal Sérgio Moro, apontando ataque à liberdade de expressão e, para alguns, violação da própria lei. 

 "É preocupante a atitude do juiz federal de Curitiba, que já quis dar lição à 'Folha de S.Paulo' sobre o que o jornal deveria publicar", escreveu, por exemplo, o jornalista Kennedy Alencar. "A Operação Lava Jato tem sido marcada por vazamentos. Não dá para adotar dois pesos e duas medidas em relação a quais vazamentos podem ou não ser tolerados por policiais, procuradores e juízes. Aceitar isso é flertar com perigosa tentação autoritária", afirmou. 


 Ele cita questionamento feito pela jornalista Monica Bergamo, também da Folha, à assessoria de Moro, sobre os motivos da condução coercitiva. A resposta, lacônica ("Sem comentários"), também foi criticada por Kennedy: "Não é uma resposta razoável. São necessárias explicações mais detalhadas da parte de Moro. O sigilo da fonte é uma garantia constitucional. Quebrá-lo fere a liberdade de informação." O jornalista acrescenta que a opinião pública merece saber as justificativas para a decisão, "pelo princípio da transparência tão defendido por Moro e integrantes da Lava Jato". 

A ex-presidenta Dilma Rousseff divulgou nota em solidariedade a Eduardo Guimarães. "O episódio é grave. Ameaça a liberdade de imprensa e de expressão, garantidas pela Constituição. Sou solidária a Eduardo porque sei como é duro ter de se explicar por pensar e escrever", afirmou. 

 O jornalista Ricardo Noblat, do jornal O Globo, também criticou a atitude do juiz federal. Segundo ele, Moro "deve melhores explicações a respeito". No Twitter, ele afirmou que jornalista que publica informações vindas de vazamento não comete crime. "Ninguém mais do que a PF vaza informações q lhe interessam", escreveu.

 A um seguidor que o questionou por Guimarães não ser jornalista profissional, Noblat respondeu: "Nada na lei proíbe um blogueiro de ser político e não jornalista".

 O jornalista e também blogueiro Luis Nassif observou que recentemente o ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal, considerou o sigilo de fonte como um direito da sociedade, e não de jornalistas. "Além disso, ao não reconhecer mais o diploma de jornalista como pré-condição para a prática da profissão, o STF acabou com a classificação restrita de jornalista", acrescentou. 

 Para Nassif, a condução coercitiva representa um episódio de vingança pessoal de Moro: Guimarães, crítico da Operação Lava Jato, é autor de uma representação contra o juiz no Conselho Nacional de Justiça. E Moro entrou com ação contra o blogueiro por causa de uma frase de 2015, no Twitter, na qual Guimarães afirma que as ações da Lava Jato irão ameaçar "seu emprego e sua vida", referindo-se ao leitor e não ao juiz, que no entanto considerou-se "ameaçado" e resolveu processar o autor.

 "A condução coercitiva de Eduardo Guimarães expõe de forma inédita o uso do poder pessoal arbitrário de Moro para retaliar adversários. Não se trata mais de luta política, ideológica, de invocar as supinas virtudes da luta contra a corrupção para se blindar: da parte de Sérgio Moro, a operação atende a um desejo pessoal de vingança", diz Nassif.

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