11 de set de 2013

Xenofobia e racismo contra médicos cubanos

Por Simone Freire, no jornal Brasil de Fato: 

 Segundo pesquisa divulgada pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT), nesta terça-feira (10), a maioria da população brasileira é favorável à contratação de médicos estrangeiros por meio do Programa Mais Médicos. Das 2.002 pessoas entrevistas, 73,9% apoiam o programa e 49,6% delas acreditam que ele solucionará problemas graves relacionados à saúde no país. 


No entanto, demonstrações de xenofobia, racismo e preconceito reverberaram nas últimas semanas, após a chegada de centenas de médicos estrangeiros, dentre eles 400 cubanos que irão participar do programa por meio do acordo entre o Ministério da Saúde e a Organização PanAmericana de Saúde (Opas). Os recentes episódios demostraram que as críticas ao programa ultrapassam a questão da saúde pública e chegam ao campo político e ideológico.

 Acostumados a trabalhar em zonas de conflito ou países com baixo IDH na América Latina, África e Ásia, 96 médicos, na sua grande maioria cubanos que haviam acabado de participar do primeiro dia do curso de formação sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), em Fortaleza (CE), foram rechaçados por dezenas de médicos brasileiros. Foram gritos, xingamentos e vaias. 

 O fato ganhou massiva divulgação por dezenas de veículos de comunicação e nas redes sociais através da foto de um médico cubano negro sendo vaiado por médicas jovens, o que levantou a discussão do racismo contra os cubanos. Na mesma semana, a jornalista do Rio Grande do Norte, Micheline Borges, também causou enorme tumulto nas discussões acerca do assunto. Em sua página pessoal do Facebook ela declarou de modo pejorativo que as médicas cubanas pareciam “empregadas domésticas”. Tamanha foi a repercussão negativa que a jornalista excluiu sua conta na rede social. 

 Contra os cubanos 

 Estes e outros episódios colaboraram para pautar algumas reflexões e contradições na aversão por parte de alguns dos médicos brasileiros e entidades de classe, como o Conselho Federal de Medicina (CFM), à imigração dos médicos. Uma das reflexões é que as ações preconceituosas se restringem, na maioria das vezes, aos cubanos e não ao programa em si.

 A nota da CFM, por exemplo, expõe de forma clara seu posicionamento contrário à vinda específica dos médicos cubanos. Para a entidade, o anúncio da chegada de médicos da ilha caribenha é “eleitoreiro, irresponsável e desrespeitoso”. 

 A nota também coloca em dúvida a qualidade da medicina do país de Fidel Castro e condena “de forma veemente a decisão irresponsável do Ministério da Saúde que, ao promover a vinda de médicos cubanos sem a devida ‘revalidação’ de seus diplomas e sem comprovar domínio do idioma português, desrespeita a legislação, fere os direitos humanos e coloca em risco a saúde dos brasileiros, especialmente os moradores das áreas mais pobres e distantes”. 

 Para o CFM, embora os dados do Ministério da Educação (MEC) comprovem que os médicos formados em Cuba foram os mais aprovados no Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos (Revalida) em 2011 e 2012, os médicos e a medicina cubana ainda não são confiáveis. 

 Já para o Ministério da Saúde, os médicos cubanos não precisam prestar o exame justamente porque não vão exercer plenamente a profissão no país. Eles atuarão no Programa Saúde da Família, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), sem poder dar plantão em hospital, fazer cirurgias, anestesias, procedimentos cirúrgicos e clínicos fora das UBSs. 

 Além das aparências 

 Para alguns estudiosos, a resistência aos médicos cubanos de nada tem a ver com a qualidade da medicina, mundialmente reconhecida, mas com o regime político de Cuba. Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Felipe Henrique Gonçalves analisa que há um preconceito com os médicos por serem negros e latinos, mas que o problema também tem cunho corporativista e elitista.  
Em geral, cursos de medicina são caros, o que torna quase impossível o acesso à profissão para estudantes de baixa renda, concentrando a profissão nas mãos de poucos. 

 Mesmo nas universidades públicas, segundo levantamento do Ministério da Educação (MEC), 88% das matrículas são preenchidas por estudantes que vieram de escolas particulares. 

 Gonçalves vai além. Para ele, grande parte dos médicos brasileiros são politicamente conservadores e temem ver na vinda dos médicos cubanos a perda dos seus privilégios. “A grande verdade é que a classe média não está mais aguentandover os seus impostos servindo para fazer políticas de transferência de renda para o Norte e Nordeste”, ressalta o professor de História. 

 Para a antropóloga Bernadete Castro, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro (SP), a questão dos médicos cubanos no Brasil vai além do corporativismo das profissões, principalmente no caso do CFM que exige o Revalida. “Há um preconceito muito maior com o regime e a medicina cubana. Cuba tem desenvolvido na área da medicina preventiva e tem atendido de uma forma muito ampla a sua população. Inclusive, o Brasil, durante muito tempo, consumiu e distribuiu vacinas produzidas em Cuba para várias doenças. Este preconceito é muito mais ao regime cubano e ao desconhecimento da população em relação a isso”, analisa. 

 Não é novidade 

 A chegada dos médicos cubanos para suprir as necessidades do Sistema Único de Saúde no Brasil não é algo inédito. Em 1998, mais de uma centena deles foram contratados pelo Brasil para atuar no Tocantins. Mas o projeto durou pouco. Em 2005, eles tiveram que deixar o país quando o Ministério Público do Trabalho entrou com ação alegando que os profissionais não tinham o devido registro para exercer a profissão.

 O presidente da Associação de Educadores Latino-Americanos (AELAM), José Marinho de Gusmão Pinto, manteve contato por um bom tempo com a medicina cubana e é favorável ao acordo entre a Opas e o Ministério da Saúde. Ele relembrou a participação dos médicos em Tocantins e disse que, como ocorre nos dias de hoje, “os médicos que eram anticubanos puseram defeitos, criando problemas” ao projeto e à permanência dos caribenhos no país. 

 Em visita ao Brasil para uma série de apresentações, a dupla de rappers cubanas Las Krudas se surpreendeu com a recepção aos médicos cubanos. Segundo elas, não é compreensível que alguns brasileiros não queiram abrir as portas para os médicos de seu país, uma vez que Cuba é solidária, abre suas portas a outros homens da América Latina e oferece saúde para o povo.

 Segundo Odaymara Cuesta, integrante do grupo, independentemente do governo e independentemente do capitalismo ou do socialismo, o importante é a saúde do povo. “É importante que o médico venha trazer saúde para a periferia e para a favela, lugares onde o médico rico brasileiro não que ir. Para mim isto é mais importante que política entre os países”, comenta.

 Embora tenha achado a manifestação dos médicos brasileiros interessante, uma vez que em Cuba estas ações são proibidas, Olivia Prendes, diz ter se sentido ofendida já que ela “também representa a saúde cubana”. 

 Em entrevista ao Brasil de Fato em uma apresentação em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paullo, a dupla afirmou ainda que esta é a primeira vez que presencia este tipo de aversão à presença de médicos cubanos em algum país. 

 “Venezuela, África, Haiti, Angola, Paquistão, em todos os lugares que está um médico cubano o que sei é que as pessoas querem que estejam ali porque tratam bem as pessoas e não são médicos que estão buscando dinheiro; estão pela missão de curar as pessoas”, ressalta Odaymara.

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