7 de out de 2018

A importância do voto, a importância da política.

Por Fernando Leiter: 

 Os brasileiros vivem um período particularmente conturbado. Profundas perturbações atingem, simultaneamente, a política e a economia. A presente recessão econômica está entre as maiores de todos os tempos. O desemprego e a inflação chegaram a dois dígitos, corroendo parte dos ganhos conquistados pelas classes menos favorecidas; a confiança de empresários e consumidores bate baixas históricas; as finanças públicas seguem perigosamente desequilibradas. 

 A política não anda melhor. O país é abalado por escândalos de corrupção profundos, como a Lava-Jato e a Operação Zelotes. Eles são tão profundos porque não são apenas grandes casos isolados, mas envolvem a própria forma como se faz política no Brasil.
 Eleger-se parece um pretexto para ganhos pessoais: políticos aprovam leis e conduzem políticas como um meio para se perpetuar no poder. Financiam suas campanhas e multiplicam seu próprio patrimônio. Por trás da aparência de democracia, temos faraós disfarçados. 
 Esse tipo de política é ruim para a democracia. Em muitos sentidos. Os brasileiros há muito tempo são desacreditados com a política. Isso contribui para uma situação de apatia, de resignação. Nos sentimos impotentes, fracos e desencantados. Aceitamos e tocamos o barco. Apatia esta que, na verdade, contribui para a perpetuação daquela política. Contribui para o mal do país. 
 Por outro lado, quando essa forma de fazer política, com seus escândalos sucessivos, enfrenta uma crise econômica dessa magnitude, a democracia entra em risco. A apatia se torna raiva. A raiva não só se dirige aos políticos, mas acorda preconceitos e ressentimentos, e as pessoas se viram umas contra as outras, em um processo de radicalização. A sociedade se divide.
 Nesse contexto, nossa raiva com a política pode fazer crer que não há solução política. Podemos passar a acreditar em soluções fora da política. Assim, atacando a política, acabamos por abrir mão da democracia. Em ambos os lados do espectro ideológico, tomamos atitudes cada vez mais autoritárias. 
Mas só há saída na política – na política democrática. Precisamos, com muito zelo, muito cuidado, separar uma política malfeita com a superioridade do regime democrático. Devemos combater a má política para melhorar nossa democracia. 
 Não é acidente que os países mais ricos e mais civilizados são democracias estabelecidas. A liberdade e a igualdade de oportunidades nos tornam melhores. Mais ricos, mais cultos, mais sábios. Portanto, precisamos melhorar a política. 
Como fazemos isso? Precisamos melhorar nossas instituições, as regras de funcionamento da nossa política – tornando-as mais democráticas. Qual a melhor forma de eleger nossos representantes? Como financiar as campanhas de forma que os bons políticos tenham mais chances de serem eleitos? Quais leis podem fazer com que os partidos melhor representem os interesses da população? 
Quais iniciativas podem melhorar o uso dos recursos públicos e torná-los mais transparentes? 
 Também precisamos melhorar nossa cultura cívica. Melhorar a política exige melhorar a sociedade, a base de onde nasce a política. Isso passa por mais instrução sobre como funciona a política, e por mais educação, sensibilização e aprendizagem de atitudes e valores democráticos. É um caminho árduo, mas é o melhor caminho. 

 Fernando Leite, cientista político, é Doutor pela Universidade Federal do Paraná. 

 A imagem é ilustrativa

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